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Equipe do UniBH testa crescimento de plantas em águas coletadas do Rio Doce

Foto viagem a mariana unibh radix

Um dos projetos do programa Sustentabilidade Radix – Vale do Rio Doce busca na fitorremediação, processo que utiliza plantas como agentes de purificação de ambientes contaminados, uma solução para descontaminar as águas da região atingida após o rompimento das barragens em Mariana (MG).

Professores, pesquisadores e estudantes do UniBH estão empenhados na pesquisa de remoção de metais pesados das águas do Rio Doce. Em entrevista à Radix, a professora Claudineia Lizieri conta como foi a coleta de amostras de águas de regiões como Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Barra Longa.  

Radix: Qual o maior desafio da coleta em Mariana?

Claudineia: Os desafios se iniciam na autorização para a coleta. Precisamos de permissão e acompanhamento da Secretaria Civil local para entrada na área mais atingida – Bento Rodrigues, portanto, coletamos até onde nos foi permitido. Mas, vale ressaltar que também tivemos um bom acompanhamento do técnico desta secretaria, o qual nos passou informações muito relevantes para o entendimento do ocorrido em Mariana. Outro desafio é o próprio risco que o local de coleta oferece, não sabemos exatamente sob qual situação estamos nos expondo. A extensão da área atingida também é outro desafio, pois apesar de existir uma conexão direta entre os rios afetados (Rio Santarém, Gualaxo e posteriormente o Rio Doce) não conseguimos amostrar toda área. Além disso, é um ambiente lótico, ou seja, com movimentação da coluna d’ água, isso também é um fator limitante para conclusão dos dados, devido à dinâmica que estes ambientes apresentam, sendo então, estes primeiros resultados um estado da água em um determinado local em uma determinada data. Temos muito ainda para fazer!

Radix: Como foi a viagem e o encontro com a equipe do IFRJ? O que coletaram em Bento Rodrigues?

Claudineia: Na equipe do UniBH, coordenada por mim, foram as alunas de iniciação científica Carina Aquino e Taciane Melo, além do pesquisador e colaborador da equipe Cristiano Mattioli. Nossa equipe se deslocou de Belo Horizonte e se encontrou com a equipe do Prof. Hiram (do projeto de análise de água e lama, realizado pelo IFRJ) na Secretaria de Defesa Civil, em Mariana, onde também nos juntamos ao técnico que nos acompanhou até Bento Rodrigues. Após a visitação e coletas no local, nossa equipe se despediu do grupo do IFRJ e se deslocou para outras áreas de Paracatu de Baixo e Barra Longa, onde também fizemos reconhecimento da área e coletas de água. O campo foi de muito sucesso, com muito rendimento e sem nenhum transtorno em termos de trabalho técnico. Em todos os ambientes amostrados, coletamos águas para serem analisadas em termos de presença de metais e montagem de experimentos laboratoriais.


Área de amostragem em Paracatu de Baixo.

Radix: Antes da coleta, vocês já tinham um plano do que iriam fazer com o material, certo? Esse planejamento ajudou na hora de levar os equipamentos necessários para conservação das amostras?

Claudineia: Sim, tínhamos um planejamento feito antes da coleta, isto é essencial para que o campo funcione. Saber onde e o que amostrar, além do volume da coleta e o local de armazenagem é essencial. O pós-coleta também deve ser planejado, o armazenamento das amostras, por exemplo, é muito importante para a obtenção de dados fidedignos.

Radix: Por que a escolha de coletar as amostras em Bento Rodrigues, distrito de Mariana?

Claudineia: A região de Bento Rodrigues, que foi diretamente atingida pela lama, é a mais próxima das barragens, ou seja, é estratégico coletar neste local para inferirmos resultados relacionados às atividades mineradoras. No entanto, coletamos também em Paracatu de Baixo e Barra Longa, sendo esta última região representada pelo rio Gualaxo e rio do Carmo, aproximadamente 2h dirigindo de Bento Rodrigues.

Radix: Pode-se afirmar que a região de Bento Rodrigues está perdida? 

Claudineia: Eu diria que, atualmente, a região de Bento Rodrigues está improdutiva e isso se permanecerá por um bom período, talvez décadas! A recuperação pode ser mais lenta ou mais rápida e esse processo é dependente da “boa vontade” da política local, regional e nacional, dos investimentos na pesquisa, no monitoramento, na tecnologia e na mão de obra especializada. A natureza por si só é sábia e ela irá se reconstituir de alguma forma, mas, atualmente, temos ferramentas eficazes para dar auxílio a esta recuperação. Portanto, vamos torcer para que elas sejam utilizadas o mais rápido possível.

Área de amostragem em Bento Rodrigues: Rio Santarém.

Radix: Qual o impacto ambiental dessa tragédia?

Claudineia: Além de todo impacto social que vivenciamos, também tivemos um impacto ambiental gigantesco! Assolou um vilarejo, com perdas humanas, culturais e ambientais incalculáveis, a enxurrada de lama percorreu quilômetros de águas continentais e chegou ao mar. A água do Rio Doce ficou sem vida, os nossos olhos puderam ver dezenas de peixes e outros animais mortos, a mata ciliar devastada, os solos erodidos. A lama ocasionou a turbidez da água dificultando a entrada de luz e oxigenação do rio. No oceano, as consequências não são muito diferentes. A turbidez da água continua a afetar a penetração de luz. Quanto a presença de metais, é inacreditável pensar que este dado ainda é duvidoso após um ano do ocorrido. Entretanto, relatório do IGAM, 2015, logo após o rompimento da barragem, relata presença de elementos tais como arsênio, cádmio, chumbo, cromo e níquel (IGAM,2015) ao longo do Rio Doce, o que apresenta um problema seríssimo para a saúde ambiental e humana.

Radix: Além de Bento Rodrigues, vocês também visitaram Paracatu de Baixo e Barra Longa? O que encontraram nestes locais? 

Claudineia: Sim, visitamos Paracatu de Baixo e Barra Longa. Em Paracatu, em uma proporção menor, pois a comunidade era menor, mas o mesmo que presenciado em Bento Rodrigues, uma comunidade coberta pela lama e um rio que ainda parece sangrar, muito rejeito depositado sobre o solo e vegetação.

Preparo das amostras para transporte.

Radix: Os alunos da UniBH também estão envolvidos no projeto? A equipe pretende voltar à região para coletar novas amostras?

Claudineia: Sim, atualmente são 4 alunos envolvidos e pretendemos fazer novas coletas ainda no primeiro semestre de 2017.

Radix: O que já fizeram com as coletas?

Claudineia: As coletas de água, nas regiões do Rio Santarém em Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Rio Gualaxo e Rio do Carmo em Barra Longa, foram utilizadas para experimentos em laboratório utilizando as águas coletadas e plantas aquáticas Spirodela e Lemna. Nós colocamos essas plantas para crescerem nas águas coletadas das respectivas áreas. A proposta deste projeto é avaliar o crescimento de plantas aquáticas sob condições de estresse por excesso de metais pesados e avaliar o potencial destas para remover os elementos químicos da solução, na tentativa de indicar espécies com potencial para o uso em processo de biorremediação e/ou bioindicação de águas contaminadas por metais, visando contribuir para remediação do Rio Doce. Portanto, subamostras de água foram retiradas para análise de metais, o que está sendo feito na Universidade Federal de Viçosa, antes e após a submissão de plantas ao cultivo nessas águas. Após a obtenção dos resultados, será possível verificar o potencial de remoção de metais pelas plantas. Os resultados prévios mostraram que o crescimento das plantas não foi afetado pelas águas. Este resultado é promissor evidenciando que as águas em estudo não apresentaram efeito tóxico sobre a produção de biomassa das plantas. Entretanto, é necessária a obtenção dos resultados das análises de água para saber as concentrações de metais presentes nas mesmas.

Para cada espécie é mensurado o crescimento, o potencial para acúmulo de metais. Análises do conteúdo de pigmentos, atividades enzimáticas e caracterização anatômica também serão realizadas. O projeto é executado em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, junto ao professor Eduardo Gusmão, e Universidade Federal de Goiás, junto à professora Débora Corrêa.

O projeto também visa o treinamento de estudantes, voluntários e, atualmente, conta com uma bolsista, de Iniciação Científica.  Os alunos são estimulados a participar de eventos acadêmicos com apresentação dos resultados de seus respectivos subprojetos. Até o momento, três trabalhos foram apresentados (dois durante o Evento Encontro de Saberes, da Universidade Federal de Ouro Preto, e um durante a SemaBIO-UniBH).

No final deste trabalho, esperamos encontrar dados que possam contribuir para melhoria do conhecimento científico, tecnológico e ambiental de nosso país assim como contribuir para formação melhorada dos alunos envolvidos.

Montagem de experimentos com Lemna sp.

Sala de cultivo e montagem de experimentos.